sábado, 26 de junho de 2010

«NA FLORESTA DO ALHEAMENTO»


Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me
que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num
sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê
cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas
profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que
sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de
desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma
grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como
a brisa aos perfis das copas.
Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de
penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o
saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer
aparecer.
Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir,
e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde
que não é este...
Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha.
Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se
misturam.
Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ...
E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para
que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber...
A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa
paisagem..., e a essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa
mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em
mim séculos de conhecer aquelas árvores e aquelas flores e aquelas vias em
desvios e aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar que o
saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver...
De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto um vento lento
varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou actual,
destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de nocturna. Depois esse vento
passa e torna a ser toda só ela a paisagem daquele outro mundo...
Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de bruma no horizonte dessa
terra diversa... E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova
visível...
Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo
negro que me consome... Uma grande ânsia passiva é a vida falsa que me
estreita...
Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por
detrás da minha atenção sonha comigo alguém. E talvez eu não seja senão um
sonho desse Alguém que não existe...
Lá fora a antemanhã tão longínqua! A floresta tão aqui ante outros olhos meus!
E eu, que longe dessa paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades
dela, é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro.
As árvores! As flores! O esconder-se copado dos caminhos!...
Passeávamos às vezes, braço dado, sob os cedros e as olaias e nenhum de nós
pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco
de som de fonte. Dávamo-nos as mãos e os nossos olhares perguntavam-se o que
seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor...
No nosso jardim havia flores de todas as belezas... - rosas de contornos enrolados,
lírios de um branco amarelecendo-se, papoilas que seriam ocultas se o seu rubro
lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros,
miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume... E, pasmados por cima de ervas
altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.
Nós roçávamos a alma toda vista pelo fresco visível dos musgos e tínhamos, ao
passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras... E subia-nos o choro à
lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes, o éramos...
Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos
mortos das suas raízes... Plátanos estacavam... E ao longe, entre árvore e árvore
de perto, pendiam no silêncio das latadas os cachos negrejantes das uvas...
O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um
sorriso igual e alheio, combinado nas almas, sem nos olharmos, sem sabermos um
do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue
do outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se
houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de
sonhos...
Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na
atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles
montes últimos no horizonte haveria alguma coisa de real, de merecedor do olhar
aberto que se dá às coisas que existem?...
Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas
irreais... Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave
saber que nada vale a pena...
O movimento parado das árvores: o sossego inquieto das fontes; o hálito
indefinível do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece
vir-lhes de dentro a dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e
próximo à alma, do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil,
pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se
entristece em nós como uma pátria recordada - tudo isto, como um cinto a desatarse,
cingia-nos, incertamente.
Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia
pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do Tempo, uma extensão que
desconhecia os hábitos da realidade do espaço... Que horas, ó companheira inútil
do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!... Horas de
cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem
externa... E nós não nos perguntávamos para que era aquilo, porque gozávamos o
saber que aquilo não era para nada.
Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tínhamos, que este dolorido
mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha extrema onde as
montanhas são hálitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por
causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma
caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la ela estranho como um perfil
da cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal...
Orlas de mares desconhecidos tocavam no horizonte de ouvirmos, praias que nunca
poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde
sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins
úteis e comandados da Terra.
Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de
cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das
folhas estava mais entranhado em nós do que a consciência de o ouvirmos.
E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e
esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a
conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter
desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor
dos ódios. Julgávamo-nos imortais...
Ali vivemos horas cheias de um outro sentimo-las, horas de uma imperfeição vazia
e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza rectângula da vida. Horas imperiais
depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de um outro
mundo mais cheio do orgulho de ter mais desmanteladas angústias...
E doía-nos gozar aquilo, doía-nos... Porque, apesar do que tinha de exílio calmo,
toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era húmida da
pompa de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um
império ignoto...
Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz. Meus lábios, que eu
sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida.
O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro. A nossa atenção
sonolenta ao mistério de tudo isto é mole como uma cauda de vestido arrastado
num cerimonial no crepúsculo.
Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um absurdo consentido
pela nossa inércia alada.
Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa ideia do nosso corpo. O cansaço
que temos é a sombra de um cansaço. Vem-nos de muito longe, como a nossa
ideia de haver a nossa vida...
Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao
ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. O
frescor aquecido do lençol acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se
sentem, um ao outro, nus.
Desenganemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos a sermos nós...
Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do
silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento...
E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós outra vez, a floresta
muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa
tristeza. Foge de diante dela, como um nevoeiro que se esfolha, a nossa ideia do
mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que essa floresta
misteriosa enquadra...
As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes,
conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia, não nelas mas na melodia dos seus
nomes... Flores cujos nomes eram, repetidos em sequência, orquestras de
perfumes sonoros... Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no como
eram chamadas... Frutos cujo nome era um cravar de dentes na alma da sua
polpa... Sombras que eram relíquias de outroras felizes... Clareiras, clareiras claras,
que eram sorrisos mais francos da paisagem que se bocejava em próxima... Ó
horas multicolores!... Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo estagnado em
espaço, tempo morto de espaço e coberto de flores, e do perfume de flores, e do
perfume de nomes de flores!...
Loucura de sonho naquele silêncio alheio!...
A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos
horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a
carne da nossa carne, que não éramos uma realidade...
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem
esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas - de realidade
que era, a ilusão - assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo
bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria...
Quando emergíamos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-nos a querer
soluçar...
Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio
inúmero de ser... Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa,
realidade ou ilusão - e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no
exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia
ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles
ficava e morava, simbolizado e absorto...
E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos,
ali estávamos... Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa
alguma... Não tínhamos vida que a Morte precisasse para matar. Éramos tão
ténues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava
por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo duma palmeira.
Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das coisas e dos seres ficaranos
à porta daquele paraíso de ausência. Imobilizara-se, para nos sentir senti-la, a
alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a
alma vergada dos frutos...
E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que
não reparámos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e
cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser...
Zumbe uma mosca, incerta e mínima...
Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que enchem de ser já
dia a minha consciência do nosso quarto... Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu
estou sozinho? Não sei. Tudo se funde e só fica, fugindo, uma realidade-bruma em
que a minha incerteza sossobra e o meu compreender-me, embalado de ópios,
adormece...
A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora...
Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos
sonhos...
Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida,
porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos
do que se espera.
Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si
próprio e não ousa ser toda a angústia que é.
Não choremos, não odiemos, não desejemos...
Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa
Imperfeição...
Livro do Desassossego por Bernardo Soares.
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Este texto foi publicado originalmente com a referência:
Revista "A Águia", Série 2, n.º 20, Agosto de 1913, pp. 38-42

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