terça-feira, 20 de julho de 2010

DO PREFÁCIO DE LEONARDO COIMBRA A «VERBO ANTIGO», DE ÂNGELO RIBEIRO


( Do Prefácio de LEONARDO COIMBRA )
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Dedicatória do autor
( Ângelo Ribeiro )
A L E O N A R D O C O I M B R A
Ao filósofo-artista de «ALEGRIA, a DOR e a
GRAÇA, em que maravilhosamente se canta
a nostalgia das Regiões Mais Altas.
A. R.
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C A R T A P R E F Á C I O
Meu caro Ângelo:
(...)Nesta terra de analfabetos e homens de letras, em geral muito abaixo dos analfabetos, os que pensam com dor e profundeza, os que sentem pensando e pansam sentindo, passam ignorados ou mal conhecidos pela parte episódica da sua vida.
É assim que todo o meu labor filosófico, todo o meu trabalho emotivo, ainda há pouco, você o sabe, foram esquecidos para me emprestarem nos jornais uma fisionomia de político, com amigos políticos ( votos?! ) e tudo.
Isto tem o seu lado trágico: bem mostra como é difícil inscrever no espaço ( «objectivar», em linguagem filosófica ) a verdadeira máscara da nossa intimidade.
Já pensou, meu amigo, como somos diferentes na apreesão alheia e como na opinião que os outros de nós fazem é a mão brutal da fatalidade a deformar o modo essencial do nosso ser?
A flor da consciência é a mais trémula e hesitante, mal pode abrir as melindrosas pétalas no vendaval que a brutaliza.
A sua homenagem é a boa e doce brisa, que toma a flor, que a embala, na repetição acalentadora da sua forma.
Uma luz se acende no Espaço e uma outra responde ao seu apêlo-duas consciências em companhia na imensa solidão e bruteza do ambiente.
(...) o seu livro é uma doce evocação da mais bela e olímpica poesia dos tempos.
O pensamento grego é a atmosfera mediterrânica das almas.
Há doçuras, suavidades, visões e imagens, que só nessa atmosfera podem abrir. Sem esse pensamento, o planeta seria exílio, apenas.
O planeta-jardim, fragmento celeste, bastante alegria de ser, são flores do pensamento helénico e só hoje revivem em tal atmosfera.
Um livro é uma simples massa mecânica ou um formidável condensador de pensamento, como o explosivo que é simples peso ou, diante do reagente próprio, reservatório de energia, arremessando gestos, fragmentando, estilhaçando. Não dorme o fogo no próprio coração das pedras?
Assim os filósofos gregos: cadáveres pulverizados ou astros de sereno e imaculado fulgor.
(...)Onde o artista pousa a alma ressalta uma faísca de animação e vida, como se o nosso olhar, perfurando os olhos de um cego, lhe reacendesse as cinzas amortecidas. É o Fogo de Heraclito animando o universo e, do fundo das coisas, respondendo ao nosso amoroso chamamento.
A arte é uma obra de ressurreição; quando revivemos um artista morto, o seu espectro é ao nosso lado, convivendo e amando.
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«Os maiores poetas gregos foram os seus filósofos e os seus trágicos-uns pela luz que espalharam, outros pela sua imensa sombra de Fatalidade.
Os filósofos foram os pontos seleccionados e venturosos, onde a flor da consciência foi abrindo, os trágicos os poços, onde a sombra espavorida se foi abrigando. Mas ao alto e no fundo dêsse poço brilha o astro-consciência, atravessando a sombra e a si regressando em serena imagem reflectida.
E a vontade socrática é a força prometaica modelando uma fisionomia caroável à própria Fatalidade.
O meu caro amigo, repetindo, em pura emoção intelectual, em adequado conhecimento, os grandes pensamentos eternos, ergue diante de nós a sonoridade apolínea do «verbo antigo», que é o mais próximo do LOGOS criador.
(...)E tal é o poder criador do pensamento, que revive adequadamente, sob espécie eterna, que você, meu amigo, levanta, diante de nós e no mesmo movimento, a alma e a paisagem helénica. Tanto a paisagem é alma, e a alma é convívio, comunicação natural!
O rio de Heraclito é tanto o rio que flui fora de mim, como este mesmo rio que, entrando-me pelos olhos, é o próprio movimento do tempo discorrendo.
A Imobilidade eleática é a omnipresença divina, a Unidade cósmica, e é a serenidade olímpica do Ar helénico e deste azul extático em que a Vida parou para meditar.
O próprio Diógenes caminhando não perturba essa atmosfera repousada, pois é mais um raciocínio em marcha, a «forma» e «alma» do movimento, que um corpo trocando relações.
E a lira de Pitágoras é para além do som, que só para o homem desatento e estúpido é inexpressivo, a relação numérica, a proporção que liga e une as coisas em fraterno convívio e universal comunicação.
É também o concerto destas vozes que das encostas se levantam, e por cima do rio se chocam em unidade perfeita, subindo aos céus como a prece da Noite, cantando.
A graça, o encanto delicado e incoercível do Amor, que tudo une, tudo «é» e em nada se resume ou esgota, é o verbo de Empédocles e o ar rarefeito e quieto da Montanha, a sua Solidão e Silêncio, cheios de presença divina e sem formas, que aos ouvidos nos murmuram místicas palavras de universal, plácido e repousado sentido.
(...)O seu livro é uma paisagem, e tão doce, serena e pacífica que não deixará de trazer da sua leitura um coração ampliado, tranquilo e contente.
As suas águas deixarão frescura para sempre, porque a água murmurando foge, Heracito a vê correr de tranquilos olhos imortais.
Nossos olhos mergulham na luz sereníssima da Grécia e um delicioso repouso nos acalenta o coração opresso.
A vida foge, transita e morre; mas a memória é de guarda, e na íntima luz do seu firmamento brilham imóveis, fixos e serenos os astros do pensamento eterno.
(...) O meu amigo começa por uma admirável obra de intelectual amor, não faz inúteis, insignificantes gestos de bailarino, entra de pronto no coração da vida e canta-a, revivendo na sua voz os mais sérios e religiosos movimentos de compreensão que a alma humana soube atingir.
Um grande abraço do seu amigo e camarada
Quinta do Tourago, Amarante, 26-8-1918.
L E O N A R D O C O I M B R A

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